DICA DE LEITURA: “MARGARIDA”, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “Margarida”, do escritor Carlos Drummond de Andrade:

A garota em êxtase brandiu o postal que recebera do namorado em excursão na Grécia :
– Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: “Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. “Marquinhos é genial, o senhor não acha?
– Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
– Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
– Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
– Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
– Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
– Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos
– Achou bacana e pediu emprestado a ele?
– Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
– Como é que o senhor sabe?
– É muito difícil consultar o Darío.
– Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
– Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
– Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
– Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
– Não dá para entender.
– Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
– Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
– Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
– Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
– Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
– Hã…
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
– Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida… Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
– Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
– Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
– Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava… Era gozado.
– Continue imaginando.
– Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
– Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
– De quem é então?
– De Marquinhos, ué.
– Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas”? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
– Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
– Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.

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