DICA DE LEITURA: “A POESIA OCULTA NO PROJETO DE BRASÍLIA”, DE CÁSSIO MONTEIRO

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “A poesia oculta no projeto de Brasília”, de Cássio Monteiro, numa homenagem à Capital Federal, que neste dia 21 completa 62 anos de fundação:

“Brasília é obra de um autor-poeta que não tinha a vaidade de criar uma capital, mas que também não podia deixar de dividir uma ideia autêntica que o encantou. O projeto de Lúcio Costa para Brasília foi o último a ser inscrito, faltando 10 minutos para encerrar o concurso da nova capital. No derradeiro instante, entregou um punhado de desenhos a lápis e nanquim misturados com folhas datilografadas, muito simples para a expectativa da banca examinadora, quase desleixado ao lado das sofisticadas maquetes e plantas dos demais concorrentes. E por que ganhou? Porque o que havia oculto no meio daqueles croquis era pura poesia.

Seu projeto podia ser um monte de rabiscos, mas submetido a um colega no trabalho, teve como resposta: “é rabisco e pulsa”. Este outro servidor público com quem dividia uma sala era ninguém menos que Calos Drummond de Andrade, nosso grande poeta moderno, e revisor do projeto do Plano Piloto.

“Trabalhei cerca de 12 anos ao lado de Lúcio Costa, num canto de sala do Ministério da Educação. Entre a divisão de madeira e uma fila de arquivos de aço, formou-se um corredor com duas mesas. Para chegar à dele, Lúcio passava pela minha. Dirigia-me um olá silencioso e, vez por outra, dava um leve toque no meu ombro. Pouco nos falávamos, mas nos entendíamos bem”, descreveu certa vez Drummond de Andrade.

Esse poema urbanista chamado Brasília “nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz1”. Traço que deu forma de avião à cidade, fazendo voar o conceito lúdico e inovador de sua ideia.

Poesia cujos versos rimaram com os prédios de Niemeyer, numa parceria que marcou época, tal como outras duplas de artistas contemporâneos a eles como Vinícius e Jobin, Lennon e McCartney, Pelé e Mané, só para citar algumas. Trazendo harmonia por meio de uma arquitetura feita de curvas de concreto, quebrando a monotonia do horizonte sem montes do cerrado.Curvas que no rabisco de Lúcio viraram tesourinhas, por onde desfila o trânsito da cidade com elegância como em um balé de carros a girar no vai-e-vém do cotidiano.

Uma poesia de métrica monumental, épica em sua epopéia de construção, gigante nos intervalos e escalas. Ao mesmo tempo, coerente com o seu pensamento de que a “arquitetura é coisa para ser encarada na medidadas ideias e do corpo do homem”.Logo, sob medida para as pessoas, com prédios de até 6 andares porque “me pareceu uma altura razoável de onde uma mãe poderia gritar por seus filhos: Meninos! Subam! Venham Almoçar!!!”

Faltasse, talvez, acrescentar nessa composição singular um pouco de litoral, quiçá uma praia, algo que os primeiros cariocas embarcados nesta aventura reclamariam ao se mudar. Mas na cidade-poema de Lúcio Costa, a poesia trouxe a tudo uma solução criativa. Declarou Lúcio Costa: “O céu é o mar de Brasília”.

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