DICA DE LEITURA: “MUTILAÇÃO SEM ANESTESIA”, DE ANDERSON OLIVIERI

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “Mutilação sem anestesia”, de sua autoria:

“Em 2009, perguntei à mãe de um amigo que falecera se conseguia descrever a perda. Ela me disse que, se uma palavra definia proximamente como se sentia, esta era “mutilada”. “E sem anestesia”, completou.

Desde então, toda vez que informado da morte de um filho com pais vivos lembro-me da expressão “mutilado sem anestesia”. Ela é a antítese do senso comum de que não há palavras capazes de explicar a dor de se perder um filho. Parece-me uma precisa definição do que, de fato, é de difícil tradução vocabular.

Foi em 1998 que tive o primeiro contato com um pai marcado pela morte do seu guri. O mutilado em questão era Pedro Simon, senador do Rio Grande do Sul, que perdera em 1984 o seu caçula, Mateus, de 11 anos, num acidente de carro. Conheci Simon comportando-me como fã. Nessa época, eu era o que pessoas próximas definiam como um “adolescente estranho”, capaz de gastar horas assistindo TV Senado.

Sofria gozações por isso. Um dia, dois amigos chegaram à minha casa e me flagraram com um balde de pipoca recostado à barriga e os olhos vidrados na televisão, que transmitia uma agitada sessão do Senado. Eles foram à loucura com a cena e se irritaram quando recusei o que os levou até ali: um convite para acompanhá-los ao comércio, onde tomariam açaí. Não guardei na lembrança a matéria que o Senado votava naquela tarde, porém decidia-se tema importante. Quem defendia a sua aprovação, da tribuna, era Pedro Simon.

Discurso de Pedro Simon, um orador formidável, não era algo a se perder – justifiquei assim minha recusa ao convite. Nesse tempo, eu acompanhava com atenção o mandato do senador, sobretudo suas idas à tribuna. Sabia cada projeto de lei de sua autoria que fora proposto e aprovado. Recebia em casa o jornal que prestava conta da sua atuação parlamentar, bem como os seus livros, publicados pela Gráfica do Senado. Certo dia, bati à porta do gabinete de Pedro Simon. Acolhido com tolerância, encontrei um senador curioso em me ouvir, embora eu fosse um menino de 16 anos. Contei-lhe o meu sonho de ser político – inspirado nele. “De jovens como você é que precisamos. Não desista”, foi mais ou menos o que me disse.

Não tratei tão a sério sua recomendação e desisti pouco tempo depois. Não levava jeito para a carreira, que tem a carisma – atributo em mim ausente – como pressuposto indispensável a um pretenso candidato. Mas a admiração por Pedro Simon nunca foi embora. Visitei-o outras vezes ao longo dos anos. Ele dizia, por gentileza, que nos tornamos amigos, menção que inclusive apôs num dos meus livros autografados.

E foi numa das visitas que fiz ao senador no gabinete que conversamos sobre o seu Mateus, de partida tão precoce. Pedro Simon me explicou como a religião e o ingresso na Ordem Franciscana lhe ajudaram a suportar o que definiu como “dor interminável” e “luto infinito”. Contou-me do sonho que teve, sete anos depois da morte do filho, em que Mateusinho lhe apareceu, dizendo que Deus o havia mandado ficar ao lado do pai. Nesta hora, vi lágrima represada em seus olhos. Compartilhei com ele o que ouvira da mãe de um amigo sobre a perda de um filho. Simon, enfático, concordou: “é exatamente este o sentimento: mutilado sem anestesia”.

Revisito essas lembranças porque acabo de saber que, no último sábado, o nonagenário amigo perdeu o filho Tomaz Simon, de 49 anos, pai de gêmeos de 10 meses de idade. Assim como ocorrera com Mateus, a morte tocou a família de forma repentina, sem anúncio de sua iminência. Tomaz sofreu um infarto, enquanto fazia compras num supermercado em Porto Alegre.

Após mais de 90 anos vividos, é natural imaginar que Simon desejava, diante do inevitável reencontro com a morte, que esta lhe tocasse para sua própria extinção. Mas traído pelo destino, viu-se de novo mutilado sem anestesia.

Espero, para este novo luto infinito, que Mateus se mantenha na companhia do pai. E que Tomaz, do outro lado, segure-o pelas mãos. Ainda que só nos sonhos do meu admirado Simon.

Para acompanhar outras crônicas deste autor, visite o site www.apalavrado.com.br.

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