DICA DE LEITURA: “A PRESSA DE UM VÍRUS QUE NÃO ESPERA A PRECE”, DE ANDERSON OLIVIERI

Facebook0
Twitter200
Instagram0
WhatsApp
FbMessenger

Loading

A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “A pressa de um vírus que não espera a prece”, de sua autoria:
“Professor JM tinha dois pecados permanentes, um deles imperdoável: lecionar a detestável matemática. Do outro, ser botafoguense, Deus certamente lhe desculpava – eu lhe provocava.

JM era adorável. Daqueles professores que se leva para a vida por virtudes profissionais e pessoais como a didática competente e a alma elevada. De jeitão simples, comportamento meio campestre, aproximava-se dos alunos como se um deles fosse. Derrubava o muro professor – aluno sem pôr a perder a autoridade hierárquica que o magistério lhe revestia.

Daria com a cara na porta quem, para encontrá-lo na hora do recreio, fosse à sala dos professores. JM estava sempre entre nós, pelos pátios, quadras de esporte, às vezes até pela capela, para onde corríamos sem pretensão de reza ou confissão. O sacro destino era a única opção segura contra flagrantes quando se queria esticar o papo do recreio por mais cinco ou dez minutos. JM vinha junto. E advertia: “Falem baixo! Senão o irmão Hilário pega a gente aqui”.

Ele ouvia os nossos arroubos juvenis e pacientemente transmitia as suas sabedorias de já um homem cinquentenário. Dele ouvi, pela primeira vez, a famosa frase de H. L. Mencken, que tantas vezes repeti a quem tentava com receita de bolo consertar as tribulações do mundo: “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”.

Éramos um grupo de amigos adolescentes, todos afoitos, de pensamentos simplórios, arrotando soluções medonhas, mas com verniz de eruditas, para problemas graves do mundo. Ele, com a frase de Mencken e mais uma dúzia de ponderações, nos aterrissava. Recomendava-nos a busca pelo pensamento equilibrado, razoável e com bom senso.

Tudo de forma sutil e com uma intrigante persuasão. Das conversas com o professor JM, saí sempre com duas certezas ou motivações: a de que eu não mudaria o mundo e a de que precisava trabalhar para melhorar esta terra de malucos – alguns tão birutas que acreditam ser ela plana.

JM desapareceu do meu caminho em 2 de dezembro de 1997. Neste dia, o Cruzeiro, em disputa com os alemães do Borussia Dortmund, perdeu o mundo. Derrotada a Raposa, fui ao colégio de bicicleta e, das mãos do professor JM, recebi o boletim de notas. Estava aprovado. Finalmente ingressaria no ensino médio.

Numa manhã, perdi o mundo com o Cruzeiro e de vista um mestre. Nunca mais encontrei o JM. Suas últimas palavras a mim foram de incentivo à nova etapa escolar e de alerta para a vida: “Você vai tirar de letra, o ensino médio é moleza, difícil é o porvir”.

O porvir de JM durou pouco mais de 23 anos. Não sei se foi difícil esse período para ele. Deve ter sido, afinal costuma ser para todos. Mas é certo que seu fim chegou no tempo mais atribulado da humanidade desde a Segunda Guerra.

A Covid-19 levou ontem o mestre JM. Eu só soube hoje – tarde demais para, em pensamento, reencontrá-lo numa capela. Desta vez, para uma prece.”

Para acompanhar outras crônicas deste autor, visite o site www.apalavrado.com.br.
Visite-nos pelo https://linktr.ee/cartoriodesobradinho
(Siga o Cartório de Sobradinho no Instagram)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine e fique por
dentro de nossas
últimas notícias!

Balcão Virtual Extrajudicial!

Certificado
E-notariado

Veja Mais

A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça aprovou nova súmula

Loading

A súmula trata sobre ação indenizatória por dano moral: “O direito à indenização por danos morais transmite com o falecimento do titular, possuindo os herdeiros da vítima legitimidade ativa para ajuizar ou prosseguir na ação indenizatória”, diz o enunciado. A Súmula 642, do projeto 1.237, foi relatada pelo ministro Benedito

DICA DE LEITURA: “TESTAMENTO”, DE IVAN JUNQUEIRA

Loading

A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é o poema “Testamento”, do poeta carioca Ivan Junqueira: Sem trilhas no labirinto, solitário, a passo lento, leio o infausto testamento de um infante agora extinto. O que ensina esse lamento a quem

Juízes de Paz do DF são homenageados em cerimônia no TJDFT

Loading

A Corregedoria da Justiça do Distrito Federal e dos Territórios promoveu, nessa quinta-feira, 6/10, cerimônia de comemoração pelo Dia do Juiz de Paz, celebrado em 15 de outubro. A data foi instituída pela Lei Distrital 3.987, de 4 de junho de 2007. O evento aconteceu no Auditório Sepúlveda Pertence, teve

Olá visitante!

Institucional

Telefone: (61) 3298-3300

Endereço: Quadra Central Bl. 07 Loja 05

Receba nosso boletim semanal exclusivo com notícias de direito notarial e registral

Fique por dentro de todas as nossas novidades e serviços

 

Conheça também nossa página de Serviços e nosso Blog 

Também não gostamos de Spam, manteremos seus dados protegidos, Veja nossa política de privacidade