DICA DE LEITURA: “GÉRSON, APELIDO BRASÍLIA”, DE ANDERSON OLIVIERI

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “Gérson, apelido Brasília”, de sua autoria:

Em 1959, quando um tijucano decidiu se mudar para Brasília, foi advertido por outro que aqui estivera e retornara: “cuidado, lá tem muita cobra: da que pica e da que fala”. Referia-se, primeiro, à surucucu, parente da jararaca, também conhecida como pico-de-jaca – uma das serpentes mais venenosas da América do Sul. Depois, à língua do povo. Quem chegasse a Brasília naqueles anos pioneiros, gostasse ou não de ambos, era premiado com trabalho e apelido. Como não gostava de bater ponto no IPASE nem de ser chamado de Tiquinho, apelido decorrente da parte íntima supostamente diminuta, o tijucano largou Brasília e voltou ao Rio.
Mas muitos persistiram aqui. Que o diga o Vaca Braba, assim chamado por causa do passado de vaqueiro na Paraíba e do peladeiro temido que era. Quando a bola estava com ele, ninguém tinha coragem de se aproximar. Do Gambá também não, mas este por motivo aromático, e não selvagem. Teve outro pioneiro que nem completara 24 horas de Brasília e já estava fichado e apodado, confirmando a fertilidade da Capital da Esperança em ocupação e em coisa de desocupado – a apelidação. Rápidos no gatilho, os pioneiros o batizaram de Trabuco depois de notar em sua mão esquerda a presença de apenas dois dedos – o polegar e o indicador, que, eretos, armados, simulavam uma pistola.
Dava sorte quem ganhava de apelido o seu gentílico – ou o nome do seu estado. Todo canteiro de obras tinha um Carioca, um Pernambuco, um Goiano, um Baiano e dois ou três Paraíbas. Esta regra também valia para imigrantes de outros países. Árabe na Nova Capital logo virava Turco. Japonês, difícil um que não fosse apelidado de Japa, Japoronga ou Japonês mesmo.
Era nos canteiros de obras, no entanto, que surgiam os apelidos mais criativos. “Três Motô” era o operário que entrava na fila do almoço três vezes. O que tinha barriga grande e branca virou “Pança de Alumínio”, numa referência às telhas de alumínio brilhantes e brancas dos acampamentos. E, na Construtora Rabello, responsável, entre outras obras, pela construção do Palácio da Alvorada, tinha o famoso Espanta Sogra – um rapaz feio que só o diabo, contam as línguas viperinas.
Não havia refresco. Patente alta, brasão da República na carteira funcional, conta bancária de muitos dígitos, nada disso blindava da esculhambação. Para se ter ideia de até onde ia a ousadia, o presidente negro do IPASE foi também alvo dos sacanas: Noite Lustrada. Já o respeitado doutor Justino Baumann, médico do IAPB a quem os candangos em disenteria recorriam, foi alcunhado de Doutô Caneco. Isso porque medicava aos pacientes um xarope servido em caneca empoeirada que, pendurada num prego, enfeitava o seu improvisado consultório.
Talvez seja de Geraldo Fedulo de Queiroz o último apelido dado antes da inauguração de Brasília. Barbeiro de Augusto Frederico Schmidt e Negrão de Lima, o mineiro simples de vida dedicada ao Rio de Janeiro foi escolhido pelo cerimonial, a pedido dos dois amigos íntimos de JK, para representar os candangos no discurso de inauguração da Nova Capital. Sem nunca ter assentado um tijolo na cidade, chegou a Brasília, no histórico 21 de abril de 1960, já afamado entre os “pares”: Faz-de-Conta.
Ah, sim, o tijucano previamente alertado pelo conterrâneo também veio se arriscar por aqui. Gostou tanto que só voltou a pisar na Tijuca de sua meninice e mocidade 23 anos depois.
Nesse retorno, surpreendeu-se. Não era mais o Gerson da Tijuca. Havia virado o “Brasília”.

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