DICA DE LEITURA: “JOANA”, DE ANDERSON OLIVIERI

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica “Joana”, de sua autoria:

Circulava pelo Rio de Janeiro, entre os anos 1970 e 1990, uma figura excêntrica conhecida como Profeta Gentileza. Ele perambulava pela Zona Central da capital carioca vestido numa túnica branca e enfeitado com cabeleira e barba grisalhas. Fazia inscrições, em grafites quase indecifráveis, nos muros do Viaduto do Gasômetro. A mais famosa dessas inscrições – “gentileza gera gentileza” – ganhou o mundo.

Um dia, lendo sobre o Gentileza, me desapontei ao saber que de gentil ele não tinha nada. Perseguia e intimidava mulheres com saias acima do joelho. Chegava, às vezes, a agredi-las e a berrar à beira do ouvido delas xingamentos como “vagabunda” e “prostituta”. Fazia tudo isso equipado, às mãos, de livros espirituais – entre eles, a Bíblia.

Antes de saber desse lado opressor dele, descortinado graças ao artigo da escritora Heloísa Seixas, sempre me lembrava do Profeta Gentileza quando via a Joana, aqui pela Asa Sul de Brasília. A semelhança não está na estupidez e brutalidade, mas na disposição andarilha de ambos, sem destino, sem lenço, sem documento.

Certa vez decidi ter com Joana. Achei que seria uma personagem interessante para um trabalho de fotojornalismo. Encontrei-a entre a 206 e a 207 Sul – seu ponto tradicional. Parei o carro e me aproximei, certo de que ela resistiria à minha aproximação. Da sua fama de arredia, já sabíamos eu e meia Brasília.

Apresentei-me e perguntei se podia entrevistá-la. Como previra, se afastou, apressada. Justificou o aperto do passo com a falta de tempo: precisava seguir com a sua fuga. Pessoas más, disse, perseguiam-na. Insisti, indo atrás dela – apesar do receio de ser visto como um dos tais perseguidores. Com jeito, pinçando as palavras e formas corretas de me comportar, tentei conquistar a confiança de Joana. Deu certo. Ela, aparentemente esquizofrênica, me contou um pouco sobre a própria vida – um enredo cheio de desencontros.

Joana tem um português impecável e um gestual fino, delicado. Conhece as regras de boas maneiras e me deu a impressão de, num banquete, rodeada de alongada fila de talheres, saber utilizá-los corretamente. Recebeu educação escolar e familiar, percebe-se logo.

Joana é, além de tudo, poeta. Ela me mostrou os cadernos de poemas que carrega. Tentei que declamasse um deles, mas me disse que só o faz sozinha, à noite, para a árvore onde, sob as folhas, se reclina. De repente, Joana tomou aquela, por mim prevista, atitude de arroubo: fechou os cadernos, enfiou-os na sacola e acelerou o passo: “preciso ir, o governador de Brasília quer me colocar num abrigo”. Fui atrás de novo: precisava saber se me permitia usá-la como personagem no trabalho de faculdade. Sem nem se virar, com a voz empostada, consentiu: “Pode, pode! E diga lá que sou poeta.”.

Joana não merecia só parecer com o hoje bajulado Gentileza. Ela que deveria ser a Profetisa Gentileza.

Para acompanhar outras crônicas deste autor, visite o site www.apalavrado.com.br.

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Uma resposta

  1. Amei essa crônica, sensível e ao mesmo tempo, digna de reflexão…
    Concordo que nossas atitudes são o que realmente importam, e não apenas palavras
    Parabéns

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