Dica de leitura: “Do luto à luta cotidiana”, de Anderson Olivieri

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A dica de hoje do jornalista Anderson Olivieri – responsável pela comunicação do Cartório de Sobradinho – é a crônica Do luto à luta cotidiana, de sua autoria:

Quando a tragédia inesperada nos leva à lona, pensamos que o mundo desabou. A devastação interior cria em nós a sensação de que lá fora tudo também é escombro. O sentido das coisas se embaralha de tal forma caótica que suspeitamos não mais existir ordem em canto nenhum.

Mas esta falsa impressão não resiste para o enlutado que abre a porta de casa e bota o nariz para fora. Foi o que notei há poucos dias, quando, aos cacos, retomei uma rotina de que tanto gosto.

Embiquei o carro em direção à padaria de costume, pedi o queijo quente de sempre, um expresso duplo – normalmente vou de simples, mas senti as papilas da boca alvoroçadas, era café que pediam -, e água gasosa com muito gelo. Larguei o celular no canto oposto da mesa e dediquei-me à contemplação do entorno.

Havia pássaros na árvore que sombreia a calçada da padaria. Sou péssimo em distinguir espécies, mas bom apreciador de cantos. Eram quatro ou cinco pássaros, em agradável sinfonia. Na mesa ao lado, um casal discutia – em tom respeitoso – se demitia ou mantinha a Vera, babá do bebê que se aproveitava do descuido dos pais para degustar o porta-guardanapo da padaria. Aproveito para deixar o meu recado ao vírus: fique longe daquela fofura, cara!

À minha esquerda, na pista, quatro rapazes descarregavam farinha, verduras, caixas de frango, todo tipo de insumo garantidor do funcionamento da padaria. Cruzei o olhar com um deles, que, constrangido pela máscara ao queixo, elevou-a. Perturbei-me. Teria sido o meu olhar inquisitório, de quem no descanso de uma mesa e cadeira, servido de pão e café, exige do braçal trabalhador o cumprimento das regras da pandemia? Talvez tenha sido – e detestei isso. Mas como desculpar-me por um olhar?

O Tadeu veio à mesa quebrar o meu silêncio observador. É ele o garçom que sempre me atende. Furou naquele dia por atraso na chegada ao trabalho. Ônibus quebrado, o motivo. “Seu Anderson, o baú tava igual o Cruzeiro na B, engasgando. Uma hora foi só o pipoco e a fumaçaiada”. Celebrei-o, o importante é que chegara – infelizmente não a tempo de dizer à moça da chapa que meu queijo quente era sem manteiga.

Na última mesa da calçada, um senhorzinho atracava-se com o jornal. Vira página pra cá, dobra no meio pra lá, separa cadernos, deixa o minguado Classificados cair, pega do chão, pega no pão, joga um farelo pro pombo, abaixa a máscara, molha a ponta do dedo na ponta da língua, vira a página do jornal…

Cortei a preocupante cena para observar mãe e filha entrarem na padaria. A garotinha estava uniformizada dos pés à cabeça. As fitas que enlaçavam a imponente trança no cabelo são tricolores em tons idênticos à farda do colégio. Já a mãe pareceu-me uma daquelas supermães que se dedicam exclusivamente às crias. Foi o que o cabelo desgrenhado e a calça de pijama me sugeriram. Pegaram um lanche, enfiaram na lancheira da garotinha e partiram. O sinal já devia ter batido.

Do outro lado da rua, perambulava o doidinho do bairro, com seu carrinho de compras recheado de imundices e fone de ouvido plugado ao ar. Cá perto de mim, um médico, com cara de acabado, aparentemente plantonista naquela madrugada, sentou-se. Esfregava o rosto a todo instante com mãos que, pelo que vi, não viram álcool em gel.

Lembrei de novo dos passarinhos. Ainda cantavam? Inclinei os ouvidos e, sim, lá estava a sinfonia, agora parecendo desfalcada de um tenor.

Comi o queijo quente com manteiga, virei o expresso duplo, pedi a conta… “Débito ou crédito, seu Anderson?”. Débito, Tadeu. “Cartão de inserir ou aproximação sem aglomeração?”. Aproximação sem aglomeração.

Vesti a máscara.

A vida aqui fora continua. A tristeza tem uma esperança.

Para acompanhar as crônicas e textos deste autor, visite o site www.apalavrado.com.br.

Visite-nos pelo https://linktr.ee/cartoriodesobradinho

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